Nós e eles

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Com alguma frequência, lideranças conservadoras acusam o PT e a esquerda, Lula em particular, de terem dividido o Brasil: “Nós e eles”, “pobres e ricos”, “negros e brancos”, etc. Vejo agora o ex-prefeito nomeado de Teresina e ex-governador eleito Freitas Neto, tradicional liderança da ARENA, PDS, PFL e PSDB, levantar a mesma tese em jornal de nossa capital. Indo adiante, Freitas Neto diz: “Bolsonaro é fruto do Lula, é um produto dele”.

Ora, ora, vamos pensar um pouco sobre isso. Como professor de história, economista e como filho de caminhoneiro, vejo com certo sentimento de impotência essa enorme capacidade que as elites tradicionais têm de inverter os termos da equação político-social brasileira e de jogar sobre os outros responsabilidades que são suas.

Qualquer estudante universitário, minimamente antenado, especialmente da área de humanidades, sabe que a formação social brasileira está assentada, isto é, tem alicerces fincados, na escravidão e no latifúndio e que daí advêm outras marcas relevantes de nossa formação: patriarcalismo, autoritarismo, machismo, falta de senso de responsabilidade social e a exclusão social; sendo esta admitida como fato natural e imutável.

Então quando olhamos para além dos interesses próprios, que são pessoais e também de classe, verificamos que o “nós e eles” se tornou uma categoria política porque já era um fato da nossa formação sócio-cultural. A quanto tempo existe em nossa sociedade a clara noção, por exemplo, de que justiça é coisa a que só os ricos têm acesso? Foi o PT que inventou esse sentimento? Foi o PT que forjou a divisão entre a Casa Grande e a Senzala?

Alguém pode tentar me retrucar dizendo assim: o professor Merlong está tentando responder a uma tese atual, que considera equivocada, com fato de nosso passado histórico. A estes eu digo: esse passado está aí presente, bem diante de nossos olhos, em nosso sistema educacional, nas empresas, igrejas, em nossas casas. Isso acontece porque a desigualdade extrema (maior marca de nossa formação social) se reproduziu ao longo do tempo e atravessou a Colônia, o Império e a República.

A desigualdade extrema pode ser demonstrada em muitos fatos, mas cito apenas dois:

1) somente em 1996 as elites tradicionais se sentiram na obrigação de alocar recursos orçamentários, por meio do FUNDEF, para garantir vaga no Ensino Fundamental para todas as nossas crianças;

2) essas mesmas elites jamais cumpriram a promessa de praticar um salário mínimo equivalente a 100 dólares. Registro que quando o ilustrado e poliglota Fernando Henrique Cardoso entregou o governo ao ex-operário Lula o salário mínimo estava em cerca de 75 dólares.

Ao contrário do que pensa Freitas Neto, o “nós e eles”, que sempre esteve bem fincado em nossa formação social, se tornou fato político em razão da reação das elites tradicionais às ações concretas do governo da esquerda no sentido de reduzir a distância ente o “nós e eles”. Sem espaço para citar todas as ações, destaco umas poucas: o salário mínimo chegou a 360 dólares; o FUNDEF, em apenas 10 anos, evoluiu para o FUNDEB (que garante vaga em todo o ensino básico e expande o acesso à educação infantil); a enorme expansão do sistema universitário, que dobrou as vagas em apenas 12 anos; o Minha Casa Minha Vida, garantindo recursos orçamentários para reduzir o déficit habitacional; o Mais Médicos, Ciência sem Fronteiras, o Farmácia Popular, Luz para Todos…

Sentido-se ameaçadas em seus tradicionais privilégios e sem dispor de candidato capaz de enfrentar as esquerdas, as elites passaram a utilizar seus instrumentos de poder com o fim de destruir qualquer alternativa de renovação do governo popular: afastamento de Dilma, mesmo sem crime cometido; prisão de Lula, sem qualquer prova de crime cometido; criminalização dos movimentos sociais, etc. E como ainda assim nenhum candidato da direita se viabilizou, recorreram ao candidato da extrema direita e ao financiamento da maior campanha de difamação já feita por meio das redes sociais.

Sem ideias e propostas para apresentar com alguma probabilidade de obter aceitação popular, foi preciso recorrer à destruição dos adversários. Agora Freitas – talvez já preocupado com os rumos do novo governo – procura isentar as elites de suas responsabilidades e apresenta a tese de que Lula é o criador de Bolsonaro. A coisa é mais ou mais a seguinte: Lula e todos nós – seus amigos, seguidores e admiradores – desenvolvemos uma espécie de masoquismo político e por isso alimentamos o nazi-fascismo no Brasil.

Melhor rir, pra não chorar.

Merlong Solano, em 24.11.2018
Professor da UFPI
Suplente de deputado federal – Pi

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